Tinha eu 10 anos
quando a Revolução francesa rebentou no meu País.
Com essa idade, para espanto de meu pai, que via em mim apenas uma
criança travessa, alegre, cheia de fantasia e amiga da brincadeira,
fiz a minha primeira Comunhão. Desde esse dia, considerei-me
consagrada a Deus e às Suas obras.
Nascera a 10 de
Novembro de 1779 em Jallanges – Cõte d’Or -,
numa família de camponeses abastados e de costumes cristãos
solidamente enraizados. Os meus pais baptizaram-me no dia seguinte,
na Igreja de Seurre, sob a protecção de S. Martinho.
Pia baptismal - Igreja de Seurre
Mais tarde fui
viver para Chamblanc, na região de Dijon.
Casa Javouhey -
Chamblanc
Cozinha da Casa de Nanette
Quarto de Nanette
A minha adolescência
foi vivida com os ventos fortes da Revolução. O Estado
Republicano intrometia-se a governar a Igreja: os Padres eram perseguidos,
as igrejas saqueadas. Havia espiões por toda a parte. Vivia-se
um clima de terror... e que fazer? Não podia ceder ao medo.
A Fé não podia morrer… Dava catequese às
crianças da paróquia, escondia em casa dos meus pais
os padres perseguidos pelo poder político e, de lanterna
na mão, pela noite dentro, conduzia os padres à cabeceira
dos doentes e moribundos. Corria a toda a pressa até à
igreja, a fim de salvar os paramentos e os vasos sagrados das igrejas
em chama.
As minhas proezas
e a exuberância do meu temperamento deram que falar na aldeia
e os elogios despertaram em mim o gosto de agradar, de me adornar,
de viver os meus romances, de ter o meu namorado, o Pedro…
Mas eis que ressurge o despertar da minha vocação!
O Padre Ballanche, alojado clandestinamente e vestido de qualquer
maneira, saía à noite para visitar algumas famílias
da paróquia, sem nunca saber se bateria ou não a boa
porta!… Em nossa casa nunca nos cansávamos de o ouvir.
Ao escutá-lo, sentia que estava pronta para tudo. Seria capaz
de transformar a casa paterna em capela de socorro… Iria bater
a todas as portas da aldeia, se necessário fosse... Embora
o meu pai, enquanto administrador municipal, me dissesse continuamente:
- “Não quero histórias com autoridades. Percebeste,
Nanette?”
Os actos de culto recomeçaram em Chamblanc. Nos dias e horas
combinados, acompanhava o P. Ballanche à Igreja improvisada,
onde tudo estava preparado para a missa: as janelas tapadas com
os cortinados das camas, a mesa coberta com um lençol, as
hóstias feitas no forno da casa... E todo o povo reunido
e bem escondido para a celebração.
Quando avistava
um grupo de espiões que se dirigiam para inspeccionar a casa,
inventava histórias e artimanhas, oferecendo uma bebida fresca
aos perseguidores, a fim de os reter, enquanto as pessoas se dispersavam.
Com tudo isto, algo se passou em mim. Calaram-se os encantos fúteis
da minha adolescência. Havia uma convicção que
falava mais alto: o Evangelho, o exemplo do Padre Ballanche e a
sua coragem em arriscar a vida pela Igreja de Jesus.
O meu pai dizia que não me reconhecia, sobretudo quando tinha
necessidade de me ausentar para fazer silêncio dentro de mim
ou exprimia o desejo de ter um cantinho para rezar, mas que fosse
só meu. Sem perceber, mas pelo muito amor que me tinha, o
meu pai construiu-me um pequeno oratório com um altar de
pedra e uma estátua de Santa Ana.
Pequeno oratório
Estátua de Santa Ana
As minhas irmãs
acompanhavam-me neste apelo irresistível de ouvir e seguir
Deus, por isso o pai começava a perceber que tinha “perdido
as filhas".
Sentia que não havia tempo a perder. Deus fazia-se ouvir…
Pegava no tambor
do meu pai e percorria as ruas da aldeia a chamar as crianças
e os jovens para a catequese. Toda a juventude de Chamblanc corria
atrás do meu porta-bandeira. Como não queria expor
o meu pai com a minha atitude, resolvi colocar, à entrada
da granja, um crucifixo de chumbo e uma pia de água benta.
Os fardos de palha funcionavam como bancos e aí dava as aulas
de catequese. Sentia-me na minha vocação. Era a minha
paixão, mas também o meu tormento, sobretudo quando
o meu pai me imaginava a tomar conta dos criados na quinta. Não
queria enganar os meus pais ou desobedecer-lhes... mas não
conseguia resistir a Deus.
Que felicidade a minha, quando as igrejas foram abertas ao culto
e eu pude apresentar ao Padre Ballanche um bom grupo de catecúmenos.
Sentia-me escolhida por Deus para uma missão bem precisa.
O meu desafio estava
lançado, mesmo que o meu pai se alarmasse com o bisbilhotar
das pessoas da aldeia: “a filha do nosso presidente descarrila”.
Vi que não podia guardar por mais tempo o segredo. O pai
precisava de saber que já estava consagrada a Deus no íntimo
da minha alma.
Como sabia que
o pai não aguentaria o embate desta verdade, resolvi comunicar
com ele através de cartas, fazendo da minha irmã Claudina,
de 8 anos, o meu mais fiel carteiro. Ainda recordo algumas frases
de uma carta que me soube a um documento:
“Meu querido
pai, todas as suas recusas não me fazem desanimar. Creio
que seria preciso arrancarem-me o coração para me
tirarem o desejo da vida religiosa. Reconheço que é
um grande sacrifício que vai fazer, mas creia que não
será menor para mim. Evite o desgosto que um dia poderia
ter de não permitir aos seus filhos de seguirem a sua vocação.
Prometi a Deus dedicar-me inteiramente ao serviço dos doentes
e à instrução das crianças. O dia de
S. Martinho foi o que escolhi para esse acto. Queria ouvir de meu
pai: “Minha filha, faz o que o Senhor te inspira”.
Com muita dor,
o meu pai, apoiado pela mãe, foi-se conformando. Assim, na
noite do 11 de Novembro de 1798, em casa do meu irmão Estêvão,
na presença de toda a família, o Padre Ballanche celebrou
a Missa e, na frescura dos meus 19 anos, pronunciei o acto de consagração
dizendo a Deus que Lhe pertencia sem reservas.
Mas, no concreto, o que queria Deus de mim? Sempre à procura
da Vontade de Deus, fiz uma experiência nas Irmãs da
Caridade, em Besançon. Preparava-me para receber o hábito
e, de repente, senti-me mergulhada num abismo de tristeza. Foi aí
que tive uma visão premonitória: ao despertar, julguei
ver à minha volta crianças de cor, trazendo aos ombros
pás e enxadas e outros utensílios agrícolas.
Ao mesmo tempo, pareceu-me ouvir uma voz: “estes são
os filhos que Deus te dá. Eu sou Santa Teresa, a protectora
da tua Ordem”.
“estes são os filhos que
Deus te dá..."
Eu nunca tinha
ouvido falar de pretos, de crianças de cor…
Regressei a Chamblanc,
para decepção de meus pais, com a certeza interior
que era chamada por Deus a fundar uma Ordem Religiosa. Quando? Como?
Era o segredo de Deus. O Padre Ballanche aconselhou-me entretanto
a instalar-me fora da minha terra para não perturbar mais
o meu pai.
Recorri a Dom de
Lestrange, abade da Trapa em Val-Sainte na Suiça, homem espiritual
com o dom do discernimento e muito admirado pelo meu pai. Era pessoa
de grande influência e prestígio; o único religioso
que Napoleão consentia receber e ouvir. Este monge foi a
Chamblanc e convenceu o meu pai a instalar-me em Seurre. Aí,
acolhia e ensinava crianças pobres. Mais tarde, fui instalar-me
em Dôle, numa escola, com as minhas duas irmãs.
Com o coração
angustiado, dei mais um passo à procura da Sua Vontade sobre
mim e dali parti para a Trapa em Riedra, na Suiça. No mesmo
dia o “humor de Deus” chamou Pedro a ser monge trapista.
Preparei-me para tomar o hábito nas Irmãs da Trapa,
com o nome de Ir. Faustina. E, mais uma vez, senti que não
era ali. Era chamada a fundar uma Congregação com
a confirmação do director espiritual. Decidida, regressei
a Chamblanc, com toda a riqueza da experiência da Trapa e
o apoio de Dom de Lestrange.
Parti para Souvans,
perto de Dôle e aí abri uma escola que acolhia órfãos.
Os dias eram difíceis e as reservas chegavam ao fim; não
tinha nada para dar de comer às crianças. Muito perturbada,
corri para a igreja e bati à porta deste sacrário
a pedir socorro.
Sacrário
As crianças
estavam a rezar quando se ouviu uma voz lá fora: “Menina
Javouhey, estão a perguntar por si”. Saí e no
limiar da porta fiquei sem fala: era o meu pai e o meu irmão
Estêvão que chegavam com uma carroça cheia de
provisões. Lancei-me nos braços de meu pai que me
diz: ”Pois é, Nanette, nesta noite não consegui
pregar olho. Vi-te infeliz.” Deus estava comigo!
As provações
continuavam e Dom de Lestrange enviou-me para Choisey que oferecia
mais possibilidades. Entretanto o pai Javouhey cansava-se de tantas
experiências. Foi a Choisey e trouxe as suas três filhas
para casa, assim como as nossas colaboradoras e as crianças,
cedendo-nos metade da casa para as nossas “fantasias”.
Tínhamos o "Convento de Baltazar" e a
partir daí, começava a ansiar pela aprovação
da nossa pequena comunidade.
Corriam rumores
de que o Papa Pio VII faria uma paragem em Châlon-sur- Saône,
na sua viagem a Paris, para a sagração do Imperador
Napoleão. Então fui a Châlon com as minhas Irmãs
e obtivemos uma audiência e a bênção do
Papa, que me disse: “Coragem, minha filha, Deus realizará,
por teu intermédio, muitas coisas para a Sua glória”.
Com este acontecimento, começam a chegar a Chamblanc algumas
jovens de Châlon que queriam ver como funcionava a nossa pequena
comunidade. De regresso, disseram ao pároco que não
havia condições para se viver em Chamblanc e depressa
nos pediu, com a autorização do Bispo, para irmos
para a sua paróquia de Châlon, a fim de nos ocuparmos
das crianças.
A comunidade de
S. José foi inaugurada a 20 de Agosto de 1806, dia de S.
Bernardo, patrono da Trapa. Desejei escolher este santo como patrono
mas o Padre de Châlon disse-me que Santa Teresa escolhia S.
José para patrono das suas comunidades. Então, a partir
daqui, começámos a ser conhecidas como Filhas de S.
José.
AMJ
Casa Cluny
E a 12 de Maio
de 1807 nascia a Congregação com a tomada de hábito
das quatro filhas Javouhey e ainda cinco jovens que assumiram o
mesmo compromisso, consagrando-se a Deus na Igreja de Châlon-sur-Saône.
Em 1821, estabeleçi
em Cluny a Casa-Mãe do Instituto, que se chamará para
sempre “S. José de Cluny”. E ano após
ano Deus foi abençoando a sua obra com vocações
e novos campos de missão.